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E Se...

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Duvido que qualquer um que ler este blog hoje, não tenha em algum momento da vida pensado: E se eu tivesse feito assim? E se eu tivesse namorado ele? E se eu não tivesse casado? E se eu tivesse?...
Pois é o famoso “e se...”, algo que muitas vezes nos atormenta. Eu, com minha inútil tentativa de acertar sempre, pensando milhares e milhões de vezes antes de tomar qualquer atitude, sou dominada por esses pensamentos a todo instante e já comentei aqui no blog sobre a minha incurável sensação de que no passado era mais feliz. Lorota, claro que não era. Até porque, naquela época, também pensava o mesmo do que tinha vivido anteriormente. E assim vai... Mas em muitos momentos fico imaginando como seria minha vida se tivesse tomado algumas decisões diferentes. Mas é isso aí, bobagem imaginar isso; somos o que somos e nada pode mudar.
A todo momento temos, no mínimo, dois lados a seguir, duas decisões para tomar e não adianta porque é e sempre será assim.
Esse texto do Verissimo resume exatamente essa sensação e dúvida do que poderíamos ter feito ou sido, se mudássemos uma vírgula da nossa história.
E pra ser honesta e porque não realista, posso até ter me ferrado muito nesta vida, mas não me arrependo das decisões que tomei até hoje e que mudaram o rumo do meu barco, porque não troco a pessoa de hoje pela que eu era há 10 ou 15 anos atrás. E isso só foi possível porque, embora muitas estradas tenham sido percorridas na contramão, me fortaleceram e me enriqueceram tornando-me quem sou hoje.
E tem mais. A cada dia que acordamos temos a incrível possibilidade de nos arrepender e recomeçar, de ver o que está certo e persistir. É algo mágico cada despertar, pois temos a possibilidade de viabilizar o que sonhamos, o que queremos. Então, dane-se o que passou...
O que importa é o que virá... E que assim seja!!!!
Beijão gente. Fiquem com Verissimo...

Versões

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido. Ah, se apenas tivéssemos acertado aquele número ("Unzinho e eu ganhava a sena acumulada"), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito "sim", dito "não", ido para Londrina, casado com a Doralice, feito aquele teste... Agora mesmo neste bar imaginário em que estou bebendo para esquecer o que não fiz - aliás, o nome do bar é "Imaginário" - sentou um cara do meu lado direito e se apresentou.
- Eu sou você se tivesse feito aquele teste no Botafogo.
E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
- Por quê? Sua vida não foi melhor do que a minha?
- Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei à seleção. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. Até um dia...
- Eu sei, eu sei... - disse alguém sentado do outro lado dele.
Olhamos para o intrometido. Tinha a nossa idade e a nossa cara e não parecia mais feliz do que nós. Ele continuou:
- Você hesitou entre sair e não sair do gol. Não saiu, levou o único gol do jogo, caiu em desgraça, largou o futebol e foi ser um medíocre propagandista.
- Como é que você sabe?
- Eu sou você se tivesse saído do gol. Não só peguei a bola como mandei para o ataque com tanta perfeição que fizemos o gol da vitória. Fui considerado o herói do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos pés de um atacante e não me atirar. Como era um "herói", me atirei. Levei um chute na cabeça. Não pude mais ser goleiro. Não pude mais nada. Nem propagandista. Ganho uma miséria do INSS e só faço isso: bebo e me queixo da vida. Se não tivesse ido nos pés do atacante...
- Ele chutaria para fora.
Quem falou foi outro sósia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
- Eu sou você se não tivesse ido naquela bola. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo também. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fábula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio...
- E o que aconteceu? - perguntamos os três em uníssono.
- Lembra aquele avião da Varig que caiu na chegada em Paris?
- Você...
- Morri com 28 anos.
Bem que tínhamos notado a sua palidez.
- Pensando bem, foi melhor não fazer aquele teste no Botafogo...
- Nem sair do gol naquela bola...
- E ter levado o chute na cabeça...
- Foi melhor - continuei - ter ido fazer o concurso para o serviço público naquele dia. Ah, se eu tivesse passado...
- Você deve estar brincando - disse alguém sentado à minha esquerda.
Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
- Quem é você?
- Eu sou você, se tivesse entrado para o serviço público.
Vi que todas as banquetas do bar à esquerda dele estavam ocupadas por versões de mim no serviço público, uma mais desiludida do que a outra. As conseqüências de anos de decisões erradas, alianças fracassadas, pequenas traições, promoções negadas e frustração. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que sim com a cabeça, tristemente. Só então notei que ele também tinha a minha cara, só com mais rugas.
- Quem é você? - perguntei.
- Eu sou você, se tivesse casado com a Doralice.
- E?
Ele não respondeu. Só fez um sinal com o dedão virado para baixo.

Luis Fernando Verissimo (Novas Comédias da Vida Privada, 1996)

(Creio que a vida não é feita das decisões que você não toma, ou das atitudes que você não teve, mas sim, daquilo que foi feito. Se bom ou não, penso que é melhor viver do futuro que do passado...)

1 Comentário Adicionar Comentário

careca :

Mana,
fazendo uma soma com parcelas de cada um (seria um "Tânia Veríssimo"?) me projeto no tempo e no espaço, dizendo que o que ocorre comigo, muitas vezes é sonhar o sonho de outras pessoas. Quase sempre aprendemos felicidade com outras pessoas. Claro que o importante é preparar o futuro, mesmo que este seja feito de fantasias, afinal, sonhar não custa nada!
Bjs.
Fabio.

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