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Textos Falsos - Parte 3

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Tem sido repassado por aí um e-mail muito bonito, cheio de paisagens do pôr-do-sol e golfinhos saltitantes, ilustrando frases sobre o amor, a paixão, o medo, etc, atribuídas indevidamente a Mario Prata (mais um no rol da tão famosa autoria trocada).

Na verdade, são definições da escritora e roteirista Adriana Falcão, que soube explicar com muita sensibilidade em seu livro "Mania de Explicação" palavras que usamos todos os dias, mas que não pensamos o que elas realmente são. Classificado na categoria de livros infantis, esse livro pode e deve ser lido por qualquer adulto pois a pureza de seu conteúdo nos permite resgatar a criança que já fomos um dia, cheia de "comos" e "por quês"...

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando sempre faltam cinco minutos para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero... Também não. É um "desadoro"... Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor não sei explicar...

Adriana Falcão (Mania de Explicação, Editora Salamandra, 2001)

3 Comentários Adicionar Comentário

Renato Okano :

Oi, Bellatrix. Tem uma matéria na Folha de hoje sobre esses textos apócrifos atribuídos a escritores famosos, parece que fazendo eco à sua série de posts.

A propósito, continuo ainda sob a força gravitacional do burado negro, eu que me faço de fóton...

Beijos

Bellatrix :

Obrigada pelo toque Renato! Vou lá dar uma conferida...
Você não tem noção da quantidade de e-mails que recebo com esses textos.
No começo devolvia, alertando e comprovando a falsa autoria mas depois cansei...
Essas coisas ficam vagando pela esfera digital, e sempre encontram um mané que vai achar muito bacana mandar para o maior número possível de contatos, e entre estes sempre haverá outro mané...
Essa praga tá um bocado difícil de combater!
Beijão...

Renato Okano :

O bom é que, para dez molhões de manés, tem uma Bellatrix, pondo a casa em ordem...

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